Começo num pranto exultante de pretensão, deliciado em saber que não deixa e jamais deixará de ser lágrima, choro, dor pois não cabe nem agora nem amanhã, coube apenas nos segundos que preveram este escrito. Ah pranto maldito, enlouquecido que põe-me no chão, sob o chão, no ar, a voar, nas estrelas na poeira do universo e na lua e em todo vento, no mundo que se move ao meu redor, me respira para dentro e fora dele, me eriça os peitos e pêlos, me faz desejar virar-me do avesso. Fui à noite clamar mais um amor, uivei para lua fazendo mais uma vez meu feitiço-pedido ao cosmo, ao Criador, ao mundo, aos espíritos, aos demônios e aos santos, um clamor sincero que desespera por alguém para sermos um só. Uivei para a noite pedindo alguém, pedindo para que chegue e não pude imaiginar como ele seria, quando seria, nem por quê seria, e se eu mesmo seria esse amor, não pude nada... Nunca posso, nunca consigo vê-lo e entendi meu por quê, e esse conhecimento me espalhou até onde eu podia enxergar. Senti-me como se transasse com Deus, e a vergonha dessa sensação quase calou meu pensamento no momento e minhas palavras no agora, mas o torpor falou tão mais forte, mais pesado, éramos um só, o vento, a noite, os desgraçados da rua, as santas em suas casas, os traidores e os traídos e os inocentes e culpados. Tento fingir agora o prazer do sufocar-se em angústia plena do aprender a sentir de verdade, não fingir, não consigo mais, tão longe estou dos meus personagens sozinhos e carentes que sinto prazer com minha solidão, sinto desejo por quem ainda não conheci como nunca antes, antes eu ansiava, tudo era ansia e a vida era uma ansiosidade em acabá-la logo, sentindo, vivendo, vivo vislumbrei por poucos segundos o que pode ser um amor de verdade, o que pode fazer com minhas idéias e meu ser amar... E essa solidão explodiu de fora e dentro e dentro e fora para dentro e para fora num transbordar-se em si mesmo; um pequeno fragmento do que é me fez querer mais e mais em felicidade tênue que dividia seu espaço no meu humor com um sangrar em não ter e um beijo que não vi, não imaginei, um toque que nao sonhei, olhos que não sei a cor, palavras da qual não faço idéia, uma existência que desconheço, a existência do meu amor, do meu alguém de quem serei pertence, e ele meu e eu dele e nós de nós mesmos sendo não mais nós sendo nem sequer um, sendo, amor, puro, inconsequente pois não medi suas consequencias naquele segundo, me envolvi, fui abraçado fortemente pelo próprio amor em sua plena veracidade, sim, ele me abraçou, tocou-me cada pedaço de pele e cabelo e fez meus olhos apertarem e soprarem a fumaça pedindo por ele vir em carne, em osso e dizeres. Mas eu não precisei da sua pele pela primeira vez, a única. Seu ser me sobrepôs, subjulgou qualquer figura e conceito de antes para gritar ao meu corpo, é isso que sou, esse é meu abraço, esses são meus beijos, o Universo me beijou e pude transar com Deus... Transei com Deus enquanto a fumaça do meu cigarro cintilava pelo ar escrevendo no ar sem significar nada por segundos que aquele afago em dor era amar. Amar. Amar. E por falar com o Universo, pedir e sentir para ele esta carne que em algum lugar pode me ouvir, não fiz-me triste, não fiz-me nada, deixei-me levar pela fumaça e o vento e as nuvens e as nuvens que saiam de minha boca e a brisa e o vento na copa das árvores, não deixei-me levar, fui levado
...tateio o ar olhando atento afoito aflito a ponta dos meus dedos a brincar com o ar procurando essa sensação denovo, mas agora ela é minha, não preciso procurá-la mais.
Amei você. Amei você! Por uns curtos segundos, amei você e pela única vez até hoje digo que foi de verdade, foi real. E não sei quem é você. Mas o amei. Tentei achá-lo denovo, e meus juízos não deixaram mais, me disseram que alguém nenhum me faria sentir isso denovo a não ser a Lua e os céus e o vento e Deus; mas amei um alguém, um qualquer. Não bebi do veneno doce que mata aos poucos do amor ideal que nunca chega e nem se completa apenas para em sonho manter-se perfeito, de tirar o folego por não existir aquém dos sonhos; não perdi o folêgo. Ganhei folêgo, fui respirado pelo ar, o respirei, fui ar. E mesmo me afirmando que você não me dará isso em pele, sei que não estou preparado para você, para amá-lo, nunca estarei; só estou certo em certeza profunda que o amei de verdade, hoje, a alguns segundos atrás. Em pele, em ar, em ser, em alma, o espero sem esperar mais tanto assim, pois tê-lo amado me fez ver que nunca o esperei, nem sempre soube que um dia chegaria, nada disso: queria aprender a amar e vi que não se aprende, não são conceitos, apenas se sente. E eu senti. Senti o seu amor por mim por um curto tempo, de onde quer que você esteja, obrigado. Obrigado eternamente obrigado. E termino dizendo que o pranto ainda mantem-se querendo ser chorado mas não consegue, pois seu motivo em emocionar já se foi, e explicá-lo aqui ou tentar lembrar e até falar sozinho sobre não me faz sentir denovo, já foi, e único, será, para sempre.
Até que a pele me encontre conjugando paliativo com realidade.
sexta-feira, 13 de março de 2009
levo-me demais, e demais que quero deixar-me levar, e ser levado é levar de alguma forma essa vida.
Um arrepio leva o medo de não ter mudado nada e os dedos vão percorrendo letras tentando se procurar ou mesmo se achar, quem sabe ser achado. O demônio podia levar minha alma para um lugar aonde eu pudesse me fazer doer sem ter culpa, sujar sem ter que limpar amanhã, comer até aonde um até não cabe, beber enquanto o tempo existir, sofrer sem me cansar pois de sofrer todo mundo sabe, felicidade é divina, e tem de ser alcançada; para sentir-me só e dolorido assim, apenas preciso parar, e disso entendo bem. Estagnado, olho ao redor e não há nada além da dor e uma certa comodidade rotineira em fingir sorrisos. E dizem que a vida tem de ser assim, isso, resumir-se assim: viva como se fosse única, cada dia o último, o máximo de alegria que seu coração puder aguentar. E ele nunca aguenta o bastante, e nunca há o bastante para sácia-lo.
domingo, 18 de janeiro de 2009
sábado, 10 de janeiro de 2009
Hotel Rota 66
E observava aflito dia após dia a pequena fachada desconhecida . Ladrilhos brancos tão limpos, dois grandes vidros grossos que permitiam apenas o vislumbre da silhueta, essa jamais aparecia. Ninguém nunca aparecia As duas portas com corriqueiras maçanetas redondas de madeira também eram do mesmo vidro. Seria fumê? Não era preto, areia, arenoso, transparente mas embaçado nada dizia sobre o que havia atrás. Recordava-se de um encontro marcado fronte a saída da garagem, na via expressa, do outro lado, frustrado. Não encontrou ninguém esse dia, ligou diversas vezes mas ninguém o atendeu. Os ladrilhos sempre tão brancos... Nada comum para aquela área de imovéis. Tudo era velho, sujo e gasto pelo tempo, ultrapassado em estilo, dando um toque de cidade velha aos arredores. E o letreiro impecável, mantido assim sem sombra de dúvidas; havia cuidado naquele prédio, e uma cautela demasiada para um réles hotel em frente a um terminal rodoviário. A placa dizia ROTA 66 em vermelho e preto. Mas não eram portas de correr, e nunca estavam abertas, e não tinha nenhum telefone para contato. Sentado no banco a esperar seu ônibus passar foi sendo empurrado lentamente num profundo abismo de curiosidade que o consumia sem que ele desse conta. Sua vida miserável aos olhos de Deus parecia ansiar pelo maldito segredo que a agradável e medíocre arquitetura asseada demais escondia atrás dos grossos vidros. Não sabia, e o fato de não saber simplesmente o fascinava... Podia criar todas as hipóteses que pudesse para o estranho local. Portão de carros nos fundos, do outro lado da avenida, portanto grande demais.Com a mesma placa vertical. Já havia caminhado pela marginal naquela saída dos fundos, sentado ali em sua calçada. Seriam mesmo quartos que preenchiam seu particular mistério? Quem conseguia hospedar-se no Hotel Rota 66? Um amigo do passado um dia disse estar ali, foi o que lhe disse. Será? Não podia ter certeza. O mais engraçado foi que o amigo combinou por descaso do acaso naquele lugar. Não o viu ali, nem dentro nem fora, aquele dia apenas foi esquecido nas ruas, sozinho, esperando. Como continuava a esperar agora, fitando, aguardando qualquer tipo de sinal, uma pista insólita que levasse seus pervertidos pesadelos a esfregarem-se naqueles ladrilhos brancos, tangenciá-los. Não havia número para ligar nem recepcionista nem portas convidativas nem a coragem de punhos fechados a bater incesantemente no vidro nem um breve telefonema ao auxílio a lista. Desejava saber que tipo de crime tão limpo, agradável e impecável, ocorria sob sua fachada sóbria... Ainda sentado, mais um dia, aguardando não apenas seu transporte mas esperando qualquer coisa, que o ônibus invadisse a plataforma e esmagasse seu banco familiar e ele mesmo, qualquer coisa. Esperando. Notou algo azul e desentendeu-se com o mundo, era um azul brilhante, brilhante demais. Um tipo alto, forte, pareceu loiro, vindo do nada o arrancando da distração dos transeuntes enfadados na estação abarrotada de gente que as pressas ia e vinha. Do outro lado da grade, em frente ao Rota 66, alguém entrara, e sobrou apenas o esfumaçado de sua camisa royal por detrás do vidro sumindo no nada, uma chave. Ele tinha uma chave, e abriu a porta sob a placa, sim ele abriu, entrou, com a chave, não se sabe vindo de onde, esquerda, direita, não vi. Eu não consegui ver nada, mas algo pareceu-me, só pode ter me cutucado para no momento exato de vê-lo entrando, é, ele entrou no Rota 66 . É, entrou, ali, no Rota 66, ele... ele entrou, de azul, entrou. No Rota 66, no Hotel Rota 66
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